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Afastados de outras casas, no meio de sítios ou cercados, em arrabaldes de grande densidade de população pobre, eram apontados os Xangôs no Recife como centro de bruxaria. Dessas casas modestas de taipa dos negros a imaginação dos moradores mais próximos fazia séde de práticas demoníacas.

O batuque noturno dos toques indentificava o Xangô. Uma grande maioria da vizinhada só chegava mesmo a conhecer o batuque escutado de longe. Não se tinha idéia, exceção de poucas pessoas, no sentido religioso dos toques. Repórter e gente da policia, esses sabiam um pouco mais. Batidas policiais, noite alta, levadas pelo batuque, traziam vez por outra para a publicidade noticia do terreiro surpreendido.

A repressão policial dificultava qualquer tentativa de contacto com a vida íntima dos terreiros, nome que os negros dão aos seus templos. Só mesmo os iniciados tinham acesso às cerimônias do culto.

O noticiário dos fatos diversos era muito pouco como contribuição: as reportagens não chegavam a alcançar os terreiros em ação. Uma tentativa nesse sentido foi levada a um termo feliz pelo Serviço de Higiene Mental da Assistência a Psicopatas, à frente o prof. Ulisses Pernambucano.

O relatório do dr. Pedro Cavalcanti, que transcrevo, marca o início das pesquizas do S.H.M. estudando a questão das seitas afro-pernanbucanas.

A BAIANA DO PINA

“Visitei hoje a seita africana da “baiana do Pina”. Esta seita não é registrada na Secretaria da Segurança Publica. Chama-se D. Fortunata Maria da Conceição a sua presidente. Recebeu-me desconfiada, porem sabedora das minhas intenções não se fez de rogada para me prestar interessantes declarações. E’ ela natural da Costa d’Africa, estando já há muitos anos no Brasil, tendo residido no Rio (morro da Favela), na Baía (Largo do Sapateiro), em Maceió, e enfim no Recife, no Pina. Diz ter 110 anos de idade. È de nação Nagô e adora Sta. Bárbara. No seu terreiro há toques todos os sábados e domingos. Foi a inciadora de mais dois terreiro aqui no Recife: o do finado Gentil, no Totó, e o do seu Filho José Gomes da Silva (Néri) no Jacaré. Tem em sua casa (que pé muitíssimo enfeitada com bandeirinhas de papel de cor) três grandes oratórios com cerca de 15 imagens de santos catolicos, algumas delas grandes. A “baiana” informou-me não ter nenhuma imagem trazida da costa. Prontificou-se a fazer comigo uma revisão na palavras africanas que o Serviço conseguiu com pai Anselmo, pois descofia que deve haver coisa errada. 1-9-1932 (as.) Pedro Cavalcanti. Auxiliar- técnico”.

Não se encontra no Recife um só culto negro-fetichista puro. As diversas modificações sofridas através do tempo, inciando-se com transferência na adoração dos “encantados da Costa” em imagens de santos católicos, maneira de concilar a imposição do senhor com os sentimentos de veneração do escravo africano aos seus deuses, trouxeram o enlaçamento com a religião do branco. A esse ecletismo religioso juntou-se a influência espírita.

Da pressão da polícia resultou camouflarem de sociedade carnavalesca e centro espírita os terreiro afro-pernanbucanos. Maracatu e Centro Espírita aparecem de tal maneira que fez desconfiar.

O “Diário da Tarde” de 1º de Setembro de 1933 noticiava:

“AFOGADOS, REFUGIO DOS MACUMBEIROS AFRICANOS. A POLICIA DISSOLVE DOIS NUCLEOS DE BRUXARIA ALI EXISTENTES. “PAI NOBERTO” NOVAMENTE EXPERIMENTA O AGRADVEL CONFORTO DE UM XADREZ.

A secção de policia de costumes vem movendo ultimamamente severa repressão aos núcleos de macumba e feitiçaria africana que ainda existe esparsos pelos subúrbios.

Ciente de que Afogados estava infestado desses centros de bruxaria o sr. Edson Moury Fernandes, ajudante daquela secção, acompanhado do investigador Pedro Monteiro, dirigiu-se hontem a noite áquele arrabalde disposto as dar uma batida em ordem. Sob o protesto de que se tratava de casas de maracatu os macumbeiros vinham ali exercendo grande atividade, reunindo grande numero de adeptos. O primeiro núcleo de catimbó visado pela policia foi o “maracatu Estrela Baiana”, situado á rua da S. Mangueira em Afogados. Aí os macumbeiro foram surpreendidos em flagrante por aqueles policias. Uma mulata pernóstica de nome Otavia Josefina da Silva era a presidente da função. O mestre era o individuo José Eudet, vulgo Dé, a quem os macumbeiros atribuíam qualidades sobrenaturais...

Foram apreendidas pela polícia várias garrafas de azeite de dendê, moedas de cobre que se achavam de areia. Debaixo de uma garrafa sobre a qual se achava equilibrado um prato com restos de comida, esta um bilhete assinado por uma Pedro da Silva, que pedia ao mestre Dé para atrazar um individuo que perseguia sua família. Foram também encotradas três facas de ´pmta enferrujadas, metidas nas repspectivas bainhas. Supões-se que isto significa crimes que não foram descobertos e que precisam ficar encobertos pelo poder oculto do mestre Dé. Todos os macumbeiros foram presos e recolhidos ao xadrex da Segurança Publica.

Após essa batida aqueles policiais se dirigiram ao Centro Africano de Noberto Costa, conhecido por Pai Noberto, em Miramar. O aludito africano de há muito que organizou naquela localidade um núcleo de bruxaria com um freqüência numerosa de clientes. No salão principal de sua casa que é obra de capim, está instalado um altar adeante do qual os macumbeiros professam a sua misteriosa e sinistra liturgia. Separam casais, perseguem inimigos, desmacham casamentos, praticam emfim toda uma serie interminável de coisas espantosas, apavorantes...

Ao som de toadas africanas, em hora de S. Budun, os macubeiros sacrifiam carneiros, porcos, bodes, galinhas e outros animais domésticos.

Aí a policia apreendeu vários apetrechos, coriscos untados de azeite, bonecos, rosários, ossos de animais, etc.

Pai Noberto foi preso há meses pela polícia desta capital por ter deshonrado uma moça a quem seduzira prometendo fazer um “trabalho” para ela ser feliz. Todos os catimbozeiros desse Centro inclusive Pai Noberto foram presos também e recolhidos ao xadrex da Segurança Publica.

Ainda do “Diário da Tarde”, da sua edição de 12 de Abril de 1934 recortei a notícia:

O CENTRO ESPIRITA CARIDADE E AMOR EM JESUS CRISTO TRANSFORMADO EM SÉDE DE “MACUMBAS” DESENFREADAS EDELIRANTES – AS EXTRANHAS RECEITAS DOS “ESPIRITOS”. ETC.

A secção de Costumes e Repressão a Jogos inicou há algum tempo, como é sabido, intenso seviço de repressão aos macumbeiros que infestam alguns pontos afastados da cidade. As primeiras deligencias policiais foram coroadas de êxito o mais completo e o “Brasil Novo”, durante dias consecutivos acolheu e abrigou uma extranha fauna humana composta de fanticos e exploradores encontrados pelos investigadores a render seu culto misterioso Ogum...

Meses depois o capitão Jurandyr Mamede, então secretario da Segurança Publica, solicitou a cooperação da Assistência a Psicopatas afim de que a repressão pudesse torna-se mais eficiente, separando-se os desequilibrados mentais daqueles que fossem simplesmente e conscientemente exploradores do primaresmo e da ignorância dos fanáticos.

Alarmados ante a vigilância da policia de costumes, os catimbozeiros retraíram-se, passando a organizer com mais cautela as sedes de suas reuniões e a disfarçar convenientemente, quase sempre, sob o rotulo de sociedades espíritas os verdadeiros fins que têm em vista. Os “centros espíritas” funcionava livremente desde que se munam de uma autorização policial. Aproveitando-se dessa circunstancia os fies de Exu passaram a ser “espíritas” e o que dantes funcionava logares deserto de longínquos arrabaldes, passou a ser feito até em pleno coração da cidade. Ainda não há muito, casualmente, foi descoberta uma dessas sociedades espíritas clandestinas, cujos freqüentadores eram a fina flor do “bas-fonds” da cidade...

Um novo centro que surge – O “Centro Espírita Caridade e Amor em Jesus Cristo” surgiu há cerca de uma semana numa viela recuada e tranqüila de Dois Irmãos. Tranqüila, é de ver durante o dia. Porque durante a noite o sono e o repouso eram afastados dali a ponta-pés pela dansa dos espíritos do tal “centro” e pela algazarra constante, initerrupta, dos fieis. Aquilo intrigava os visinhos. Nunca se haviam visto espíritos mais barulhentos do que aqueles. Barulhentos e extranhos: berravam de maneira infernal durante horas seguidas, cantavam embolada e “cocos” que nada tinham, na verdade, de espirituais e sambavam a noite inteira num sarapateio de ensurdecer. Aquilo intrigava os visinhos que nada viam, é claro, mas que tinham forçosamente de ouvir aquilo tudo, até alta madrugada, a menos que preferissem desertar de casa e procurar repouso, que ali lhes era vedado, em logares distantes.

Uma queixa á policia – Ante-hontem, porem, um deles esgotou a paciência e procurou a policia. Fez-se aí uma narrativa angustiosa e comovente das suas torturas. Ninguém mais do que ele respeitava espíritos. Tanto que como bom cristão que se orgulhava de ser resava em intenção deles todas as noites, etc.

Mas é que os “espíritos” freqüentadores do tal centro eram positivamente diferentes de todos os espíritos. Sabistas impenitentes e cantadores incaqnsaveis, expulsavam de vários quilômetros em torno o socego e o repouso.

No centro Espírita Caridade e Amor em Jesus Cristo. – Hontem, quarta feira, seria dia de função segundo o deninciante. Uma turma de investigadores da Secção de Costumes, cerca das 24 horas, encaminhou-se para o “Centro, etc. Ainda a uma certa distancia perceberam os policiais os sons das cantigas e o ritmo compassado dos pés batendo em cadencia no solo. Já nas proximidades da casa – um mucambo de miserável aparência – verificaram que a taboleta afixada á porta de entrada – “Centro Espirita Caridade e Amor em Jesus Cristo” – era como de costume pura e simples tapeação. Assim o provaram o batuque monótono de tambores e as toadas africanas – preces e invocações a Ogum – que, vezes lentamente, vezes agitada, num delírio de turba enfurecida, subiam para o céo, entoadas em conjunto por dezenas de bocas. O espetáculo que minutos após se lhes deparou vieo difinitivamente comprova-lo. Era o habitual espetáculo que oferecem as macumbas. Reunidos numa sala estreita e abafada, onde se repirtavam emanações de álcool e catinga de corpos suados, cerca de trinta pessoas, homens, mulheres, crianças, sapateavam em torno a uma pequena fogueira no centro do salão. Á entrada inopinada dos policais sucederam-se momentos de pânico e estupefação. Detidos todos os presentes, iniciou-se a busca pelo mucambo: dentes de lebre, pés de veado, velas de parafina, cabelos e uma infinidade de bugigangas semelhante, foi resultado da colheita. Dentro de uma caixa de papelão foi encontrada grande quantidade de papeis, na sua maioria cartas de clientes soliciatando a receita dos “espíritos”. Entre eles, também prospectos de propaganda, em forma de conselhos médicos e sugestões dos “espíritos” á Humanidade...”

Pai Noberto pratica “despachos” como outros babalorixás. Almeida por exemplo, de quem falo noutro capitulo, foi apanhado em pleno exercício da mágica: a policia encontrou no seu Pegí p retratp de um rapaz de família importante do Recife, embebido em sangue, amarrado em fitas, cartas do mesmo jovem submetidas a processo semelhante. Tratava-se de realisar um “pacto de sangue” para resolver um caso amoroso...

Na lista que me foi fornecida pelo babalorixá Anselmo, pessoa de muito bons costumes, Noberto e Almeida estão entre os “que não tem competência”.

Gonçalves Fernandes